RIO DE JANEIRO (Reuters) - A polícia do Rio de Janeiro, com reforço a
partir desta sexta-feira de 800 homens do Exército, aumentou o cerco ao
conjunto de favelas do Alemão, para onde dezenas de criminosos armados
acusados de comandar uma onda de violência na cidade fugiram após a
ocupação policial da favela Vila Cruzeiro.
Atos de violência continuaram a assustar a cidade pelo sexto dia
seguido de ataques contra veículos e alvos policiais, elevando para
quase 100 o número de carros, ônibus e vans queimados desde domingo.
Ações da polícia em resposta aos ataques nas ruas deixaram pelo menos 45
suspeitos mortos em confrontos, de acordo com a polícia. Uma jovem de
14 anos também morreu, vítima de bala perdida.
Nesta sexta-feira, um tiroteio matou ao menos três pessoas e feriu
outras 10, entre elas um fotógrafo da Reuters, que foi baleado no ombro
perto da Favela do Alemão. Ele foi hospitalizado e não corre risco de
morte.
Homens armados afrontaram a polícia exibindo metralhadoras e fuzis na
manhã desta sexta no Alemão, e tiros foram disparados na direção de um
helicóptero policial que sobrevoava o local, de acordo com um fotógrafo
da Reuters nas proximidades da favela. A polícia informou que a aeronave
não foi atingida.
A pedido do governo do Rio, o Ministério da Defesa designou 800
homens do Exército para ocuparem os perímetros da Vila Cruzeiro e do
Complexo do Alemão. De acordo com a Secretaria de Segurança, os soldados
vão liberar policiais para incursões nas favelas.
"O confronto naquela região é uma necessidade para termos um Estado
com paz", afirmou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, em visita ao Rio
para oficializar a parceria das Forças Armadas com as autoridades de
segurança do Estado.
De acordo com o subsecretário de Segurança do Rio, Roberto Sá, as
autoridades avaliam uma incursão ao Complexo do Alemão em busca dos
criminosos que fugiram da Vila Cruzeiro. As duas favelas são
consideradas uma fortaleza da facção criminosa acusada de comandar os
ataques dos últimos dias.
"Vai haver invasão ao Alemão no momento adequado. O foco hoje ainda é
a Vila Cruzeiro, mas ir para o Alemão não está descartado. Estamos
dependendo de informações do serviço de inteligência", disse Sá a
jornalistas.
O Exército informou que a maioria das tropas de paraquedistas que vai
participar do cerco à Vila Cruzeiro e ao Alemão tem experiência em
conflito urbano por terem servido às tropas da Organização das Nações
Unidas na missão de paz no Haiti.
Veículos blindados da Marinha operados por fuzileiros navais -- que
tiveram papel decisivo na tomada da Vila Cruzeiro na quinta-feira por
superarem as barricadas montadas pelos traficantes -- continuarão a
serem utilizados para transportar policiais do Batalhão de Operações
Policiais Especiais (Bope) para dentro das comunidades, assim como
helicópteros da Força Aérea e outros veículos das Forças Armadas.
Trezentos homens da Polícia Federal também foram acionados para cooperar com a polícia fluminense.
"O Exército vai se posicionar nos acessos da Vila Cruzeiro e do
Alemão, nos liberando um bom número de policiais para outras ações que
vão acontecer", afirmou o secretário de Segurança Pública, José Mariano
Beltrame.
Na quinta, cerca de 500 policiais, a maioria transportada por
veículos militares blindados da Marinha --que nunca haviam sido usados
antes nos combates em favelas da cidade-- tomaram o controle da Vila
Cruzeiro, levando à fuga de dezenas de homens armados para o Complexo do
Alemão, também na zona norte da capital fluminense.
O comércio e as escolas da região fecharam as portas por mais um dia
nesta sexta, deixando milhares de crianças sem aula. Na quarta-feira,
uma adolescente de 14 anos foi atingida por uma bala perdida dentro de
casa e morreu no hospital. Ao menos mais 10 moradores também foram
feridos por balas e levados para o principal hospital da região, segundo
a Secretaria de Saúde do Estado.
Autoridades da área de segurança consideram as ações violentas desta
semana uma resposta à nova estratégia implementada na capital com as
Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), que provocou saída de chefes
do tráfico de favelas onde esse tipo de policiamento foi instaurado.
Acuado e forçado a deixar algumas áreas da cidade, o crime organizado
estaria reagindo.
A implantação das UPPs em 15 das centenas de favelas espalhadas pela
cidade é considerada o maior avanço na área de segurança pública da
capital fluminense nos últimos anos, e a medida foi inclusive citada
pelo Comitê Olímpico Internacional como um exemplo de que a cidade será
segura para a Olimpíada de 2016. O Rio também será palco central da Copa
do Mundo de 2014.

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